A neurociência e a psicanálise se complementam?

Diogo Lara
Psiquiatra e pesquisador da PUCRS e do CNPq

Em recente entrevista à Folha de São Paulo, o neurocientista Iván Izquierdo afirmou que a neurociência avançou mais do que a psicanálise, que hoje pode ser considerada um exercício estético, não um tratamento de saúde.

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Apesar da reação de adeptos de teorias psicanalíticas, o próprio Izquierdo reconheceu Freud como uma grande referência, com contribuições importantes e trabalhos pioneiros em usar a extinção de memórias no tratamento de fobias.

Na ciência, estamos acostumados a criticar e a receber críticas dos pares no terreno das ideias e de fatos experimentais sem levá-las para o lado pessoal. A crítica e a dúvida são bem-vindas no exercício em busca da verdade, assim como experimentos rigorosos para colocar as hipóteses à prova.

Já a sustentação da psicanálise advém de modelos teóricos sofisticados e da observação empírica, ou seja, da experiência baseada nos sentidos, buscando reforçar suas teorias. Nesse sentido, neurociência e psicanálise têm abordagens opostas em relação ao conhecimento.

A proposta do tratamento psicanalítico é buscar as causas dos problemas que, muitas vezes, seriam inconscientes e cuja origem estaria na relação com os pais no contexto de infância. A favor dessa proposição, existem centenas de estudos científicos em animais e em seres humanos mostrando que as adversidades na infância advindas da relação com os pais podem ter efeitos nocivos e duradouros.

A interpretação dos sonhos serviria para acessar o conteúdo inconsciente, e a própria relação com o psicanalista seria o caminho para a cura e o bem estar. Nesse quesito, existem poucos estudos científicos, alguns a favor e outros contra a efetividade do tratamento psicanalítico. Já outras abordagens de psicoterapia aderiram ao modelo científico e, por isso, têm evoluído e conquistado cada vez mais espaço.

A psicanálise foi a precursora das psicoterapias e introduziu conceitos que já fazem parte da nossa cultura. Na minha prática como psiquiatra, são comuns os relatos de que a psicoterapia psicanalítica traz benefícios e promove maior consciência das origens dos problemas, mas a maioria não sabe o que fazer com essas descobertas. Nas palavras de um paciente, “a psicanálise me ajudou a ligar a luz, a saber que tem um monstro na sala e a ver como ele é. Mas ele ainda está lá¿.

O que me surpreende é que há décadas existem técnicas de processamento de memórias muito eficazes para “tirar o monstro da sala”, mas pouca gente sabe disso. A mais bem estudada delas, o EMDR, conta com 25 estudos científicos positivos no tratamento de memórias traumáticas graves, com ótima resposta já em poucas sessões. Na neurociência, o fenômeno que mais se assemelha ao processamento de traumas é conhecido como janela de reconsolidação de memórias.

Quando memórias antigas são “reativadas”, abre-se uma oportunidade em que elas se tornam mais flexíveis e passíveis de serem modificadas. Outras técnicas excelentes, como o Brainspotting e a Experiência Somática, usam estratégias semelhantes para promover cura emocional. Se fosse vivo, talvez Freud estivesse usando o processamento de traumas para testar suas hipóteses. São experiências muito recompensadoras para pacientes e terapeutas.

Apesar de diferentes pontos de vista, todas as abordagens da psicologia, da psiquiatria e das neurociências são aliadas contra um inimigo comum: o sofrimento psíquico, principal problema de saúde pública em pessoas até os 50 anos.

Cerca de 30% da população tem um transtorno psiquiátrico crônico e somente 14% desses recebe algum tipo de tratamento, segundo dados do estudo Megacity em São Paulo. Apesar dos tratamentos eficazes disponíveis, as principais barreiras são custo, preconceito e preocupações com confidencialidade. Portanto, o desafio maior é fazer com o que os tratamentos cheguem a quem precisa.

O rápido avanço e amplo acesso à tecnologia gera uma perspectiva promissora para quebrar as barreiras existentes, mas ainda é pequeno o uso de aplicativos e plataformas online na área do comportamento.

Para melhorarmos o trágico cenário atual, precisamos de mais pessoas e instituições, como governo, mídia, empresas, universidades, sindicatos, escolas, igrejas e ONGs, fomentando a saúde emocional.

Muitas abordagens atuais têm valor terapêutico. Tentar ganhar a discussão é menos produtivo do que unir forças e promover sinergias para se aprimorar o cérebro e a mente dos brasileiros.

Fonte: zh.clicrbs.com.br

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